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Notícias de Brumadinho – 31/01/19

Eu, Mariana Licéia, cheguei hoje (dia 31/01/2018) em Brumadinho para, juntamente com a Adriana Araujo (que está aqui desde o dia 27/01/2018) acompanhar a situação dos resgates dos animais não humanos e repassar informações mais precisas do que realmente está acontecendo.

Estamos acompanhando os trabalhos bem de perto. Verificamos a questão dos tiros dados ao equino e bovino junto à equipe da Brigada Veterinária da Comissão se Desastres do CRMV-MG. São veterinários muito conhecidos da maioria de nós e que atuam há bastante tempo, contínua e ativamente na medicina veterinária do coletivo em suas cidades. A equipe da comissão está sobrevoando com os bombeiros as áreas afetadas. A decisão pelo abate foi em última instância e foram tomadas todas as medidas técnicas, éticas e humanitárias. Os tiros foram dados com autorização dos veterinários e somente após a aplicação de tranquilizante por meio de dardo.

Sobre resgate e doações

Os voluntários que porventura estejam atuando em campo nas regiões afetadas, sem direcionamento e sem contato com a equipe da coordenação, por favor, enviem a coordenada do local onde encontrarem animais a serem atendidos para que os mesmos sejam devidamente cadastrados, alimentados e atendidos. Dessa forma iremos otimizar os trabalhos e alcançar o principal objetivo que é beneficiar os animais.

Na fazenda onde eles estão sendo abrigados há muitos veterinários, auxiliares e voluntários. A Vale pode, deve e está arcando com todas as despesas com alimentação, equipamentos, tratamento etc. Portanto, não há motivo para arrecadar e levar doações.

Nota de apoio à atuação dos médicos-veterinários em Brumadinho/MG

(Publicado originalmente no Portal do Conselho Federal de Medicina Veterinária)

O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) informa que os médicos-veterinários da Comissão de Bem-Estar Animal, do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-MG), estão acompanhando os trabalhos de resgate de animais em Brumadinho/MG, em função do rompimento da barragem do Córrego do Feijão.

Sob a supervisão de equipe veterinária, nesta segunda-feira (28/1), dois animais (um equino e um bovino), que estavam atolados há 4 dias em local de difícil acesso, tiveram de ser abatidos por meio de rifle sanitário.

Os animais encontravam-se em local sem condições de segurança para serem içados, presos em área que oferecia riscos aos socorristas e sem possibilidade de acesso para intervenção de outra técnica de eutanásia.

Com base na Resolução CFMV nº 1000/2012, a decisão da equipe envolvida foi estritamente técnica, uma vez que os animais já estavam debilitados, desidratados e em sofrimento.

De acordo com artigo 3º da Resolução 1000, a eutanásia pode ser indicada quando “o bem-estar do animal estiver comprometido de forma irreversível, sendo um meio de eliminar a dor ou o sofrimento dos animais, os quais não podem ser controlados por meio de analgésicos, de sedativos ou de outros tratamentos”.

E a norma ainda deixa claro, em seu artigo 10, que a escolha do método dependerá da espécie animal envolvida, da idade e do estado fisiológico dos animais, bem como dos meios disponíveis para a contenção.

Adicionalmente, a Resolução CFMV nº 1.236/2018 (art. 5º, XXIX, parágrafo 1º) excetua o abate e a eutanásia da condição de maus-tratos.

O CFMV entende que o momento é delicado, requer deliberação profissional complexa, envolve preceitos técnicos e éticos, não sendo uma decisão trivial, mesmo para médicos-veterinários experientes. No entanto, o CFMV reconhece e apoia o trabalho que vem sendo feito pela equipe do CRMV-MG, que segue comprometida com os protocolos e práticas de bem-estar animal. Os profissionais envolvidos possuem experiência em ocasiões de desastres ambientais e já atuaram, inclusive, no rompimento das barragens em Mariana e nas inundações do município de Rio Casca.

O Conselho alerta que os peritos oficiais estão coletando vestígios para apurar as causas do rompimento da barragem e, por isso, o acesso ao local está restrito às equipes previamente autorizadas. Para não interferir nas investigações, nem prejudicar a produção de provas, as autoridades pedem calma e paciência, pois as equipes de salvamento já estão empenhadas no resgate dos animais da melhor maneira possível e garantindo a segurança de todos.

Nota técnica da Comissão Nacional de Bem-Estar Animal do CFMV

Por convicção, inspiração cívica e comprometimento com o bem-estar dos animais envolvidos na catástrofe de Brumadinho (MG), os médicos-veterinários brasileiros em atividade no local, voluntários ou não, estão buscando minimizar os danos à saúde física e mental dos animais presentes na área do acidente.

Cabe frisar que todo médico-veterinário possui formação técnica para realizar o diagnóstico das condições de saúde dos animais e, em casos extremos, de acordo com as resoluções técnicas do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), proceder com o sacrifício humanitário ou com a eutanásia.

Ressalta-se que o método de escolha para o sacrifício passa também pelas condições em que o animal se encontra. Zonas de guerra, de acidentes de grandes magnitudes ou de catástrofes naturais muitas vezes são áreas cujas variáveis do ambiente não estão sob o controle do médico-veterinário. Assim sendo, e não havendo condições de segurança ou de acesso até o animal para remoção ou contenção química por anestésicos, o sacrifício com o uso de rifle é aceito.

Quando corretamente aplicado, por profissional apto e habilitado, o projétil produz dano cerebral grave e irreversível, induzindo o animal à imediata inconsciência e insensibilidade, eventos que antecedem e garantem morte rápida e indolor. Por ser uma técnica humanitária e por permitir mitigar de maneira rápida o sofrimento dos animais em zonas de catástrofes, este método é amplamente difundido e recomendado pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), bem como pelo CFMV.

A decisão de sacrificar um animal não é algo fácil para nenhum profissional. Certamente é o momento mais difícil na vida de qualquer médico-veterinário. Possivelmente, os traumas produzidos em circunstâncias de sacrifício em massa e em áreas de catástrofes sejam similares aos traumas de guerra.

Sendo assim, neste momento, em que centenas de animais precisam de socorro e em que dezenas de veterinários estão assumindo para si esta responsabilidade, o que se espera da sociedade brasileira é o mais sincero apoio a cada um dos profissionais presentes hoje em Brumadinho (MG).

Conselho Federal de Medicina Veterinária

Nota 001 sobre o socorro aos animais em Brumadinho

Imediatamente após o rompimento da barragem, iniciamos a campanha de arrecadação de doações para os animais. No dia seguinte, suspendemos a campanha após decisão do comando geral do desastre de informar que veículos com doações não teriam acesso ao local. Respeitamos a ordem, mas ficamos estarrecidos diante da total falta de ação emergencial da mineradora para salvar vidas diante da catástrofe.

Nossa expectativa era que o socorro fosse imediato, tanto para as vidas humanas quanto animais. No entanto, devido à gravidade do cenário resultante do crime cometido pela Vale, até mesmos os mais hábeis socorristas, responsáveis pelos resgates, depararam-se com altíssimo grau de dificuldade e risco às suas vidas para realizar os resgates. Consequentemente, nas primeiras 48 horas muitos animais agonizaram até a morte.

O socorro aos animais só pôde ser iniciado com segurança oficialmente 72 horas após o rompimento da barragem. Fiscalizaremos para que isso seja computado neste crime hediondo da mineradora.

A Vale, por exigência da equipe fiscalizadora está providenciando o que os animais precisam. Informou que não precisará de doações para os animais. Nada além de sua obrigação.

Continuaremos monitorando para que haja celeridade a partir de agora e para garantir que a Vale arque com todo o ônus do crime cometido. Fazemos apelo à população e organizações que também fiscalizem e pressionem a mineradora para que cumpra suas obrigações legais de socorro às vítimas humanas e não humanas.

São centenas de animais, muitos dos quais retornam ao seu local de origem à procura de seu território, que agora está destruído, e de seus tutores, que estão mortos ou desabrigados. Muitos poderão ficar atolados e morrer. Estão famintos e com sede, muitos estão perdidos ou doentes.

O trabalho da equipe de resgate animal está sendo enorme e criterioso e supervisionado por profissionais isentos, altamente gabaritados, comprometidos com a vida dos animais e com o mais alto nível técnico sobre medicina veterinária do coletivo, Saúde Única e Saúde Ambiental. Isso nos garante tranquilidade e segurança quanto aos critérios técnicos de atenção animal adotados no socorro às vítimas.

Estamos diariamente nos informando sobre o trabalho de socorro e estamos reivindicando que todo o serviço prestado aos animais, bem como toda e qualquer despesa, sejam custeados integralmente pela empresa Vale, incluindo abrigos temporários e permanentes aos animais.

Sendo assim, apesar de respeitarmos a vontade de empresas e organizações interessadas em oferecer serviços gratuitos, lar temporário ou doar insumos e medicamentos, não incentivamos tal iniciativa, exceto em caso excepcional e urgente, quando não houver providência em tempo hábil pela Vale.

Sugerimos a essas pessoas e organizações que façam doações a ONGs e protetores carentes de sua região.

Por fim, sugerimos às faculdades, clínicas e profissionais afins que ofereçam produtos e serviços gratuitos para animais carentes de suas comunidades e que todo o ônus do atendimento dado a animais vítimas do Crime da Vale seja arcado pela Mineradora.